O ensino calvinista a respeito da Inspiração e da Autoridade das Escrituras Sagradas

Este capítulo deve ser visto como de muita relevância pois a partir da nossa cosmovisão escriturística, dependem e são tomadas todas as nossas posições em todas as áreas de atuação da nossa história, dentro dos mais variados contextos em que vivemos, portanto, decidiu-se abri-lo pois do entendimento dele, dependerá o restante de nossas posições.

Para o pensamento Calvinista e mais estritamente falando para o próprio formulador desse pensamento que foi João Calvino, a prova maior tanto da autoridade quanto da inspiração das Sagradas Escrituras, era o fato de o próprio Deus nos falar por intermédio de sua palavra. Calvino foi um dos homens mais sérios e reverentes estudiosos da Palavra de Deus e por isso, (CRAMPTON, 1992, P21), disse o seguinte: “Depois de sua conversão Calvino devotou sua vida ao estudo e exposição das Escrituras. Ele foi um advogado da Sola Scriptura”.

E ainda Calvino argumentava que a igreja é que foi fundamentada pelo testemunho dos apóstolos e profetas e que por esse motivo, a palavra de Deus é o meio pelo qual a igreja existe e não ao contrário.

Calvino deixa isso explícito dizendo em (CALVIN, 1994, Vl1 Cap VII, p31) “Se o fundamento da igreja é a doutrina que os apóstolos ensinaram, é necessário que esta doutrina tenha sua inteira certificação antes que a igreja começasse a existir”.

Explicando a idéia de fundação em Ef2.20, um texto usado por Calvino para demonstrar sua perspectiva sobre a autoridade das Escrituras, o reformador de Genebra diz algo que muito fortalece aquilo que estamos começando a falar, em sua visão. (CALVIN, 1998, The Age Digital Library).

“Cristo é realmente a fundação sobre a qual a igreja é construída pela pregação da doutrina e sobre essa consideração os profetas e os apóstolos são chamados de construtores”.

A autoridade das Sagradas Escrituras então, está fundamentada e é por si mesma irrefutável, por que tem Cristo como sua mensagem principal, anunciada pelos profetas e apóstolos que como construtores edificaram a igreja de Cristo por intermédio da pregação magnífica do Senhor Deus único e verdadeiro, com a finalidade de dar testemunho a respeito de Deus e de seu intento histórico, para a vida de toda a sua criação e principalmente para a edificação, fortalecimento e santificação de seus eleitos, que compõe a verdadeira igreja, da qual nasce, pela Palavra e não ao contrário.

Porém essa mesma autoridade das Sagradas Escrituras, só se torna real em nossa vida, através do testemunho interno do Santo Espírito, que nos faz dobrar diante da autoridade desta Santa Palavra, fazendo-nos crer também em sua inspiração. (CALVIN, 1994. VL III, CapII, p34) Calvino falando da palavra de Deus e da ação do Espírito em nós diz:

A Palavra de Deus é semelhante ao sol: ilumina à quantos é pregada, mas os cegos não recebem dela proveito algum. Naturalmente neste ponto todos nos somos cegos; por isso não pode penetrar em nosso entendimento sem que o Espírito Santo, que ensina interiormente, nos ilumine.

A Escritura Sagrada e a autoridade que ela exerce sobre a vida cristã, ou melhor, sobre a vida de um eleito de Deus após ter sido regenerado, é incontestável no sentido de que aqueles que são adotados por Deus, aprendem a confiar e crer em Deus ainda mais, por meio da Palavra de Deus, que testemunhando a respeito de Cristo que é a vida para o crente, esse mesmo aprende a fundamentar sua fé, na palavra de Deus sendo que isso só pode ser feito através da ação do Espírito santo em seu coração.

Calvino acreditava também que o mesmo Espírito fazia isso sem, contudo, anular as capacidades da personalidade de cada um dos autores da própria bíblia como disse: (CRAMPTON, 1992, P21).

A visão que Calvino mantinha sobre os autores da Escritura é que o Espírito Santo agiu neles em um caminho orgânico, em acordo com suas próprias personalidades, caráter, temperamentos, dons e talentos. Cada autor escreveu em seu próprio estilo, e todos eles foram movidos pelo Espírito Santo para escreverem a verdade infalível. Realmente cada estilo de autor foi ele mesmo produzido pela providencia de Deus.

Devemos notar com isso que o fato dele mostrar sua posição orgânica das Sagradas Escrituras em sua confecção, não significa que sua intrínseca inspiração anule a autoridade dessa mesma Palavra e nesse sentido vemos o que o Dr. Augustus Nicodemus nos diz sobre essa questão.

(LOPES, 2002, acessado em 20/05/2006) diz que: “Para Calvino, a maior de todas as provas da autoridade e inspiração das Escrituras era que o próprio Deus nos fala através delas. Calvino chamava a isto o testemunho interno do Espírito.’’

Ou seja, a autoridade das Sagradas Escrituras de fato é para os eleitos de Deus, para todos aqueles que amam a Cristo e tem fé em sua Santa Palavra que é o fundamento pelo qual a igreja existe e é edificada é dada a nós pelo Espírito Santo que internaliza em nosso coração luz, luz tal que remove a escuridão e dissipa as trevas espirituais da nossa mente, fazendo com que aceitemos e reconheçamos as Sagradas Escrituras como autoridade divina.

Nesse sentido nos movemos daquilo que fundamenta a igreja, que é o testemunho dos profetas e apóstolos, para aquilo que fundamenta a ousadia e a coragem dos profetas e dos apóstolos testemunharem a respeito da palavra de Deus, que é o Seu próprio Espírito, sendo que, esse mesmo Espírito é quem opera em nós a disposição de confiarmos em Sua palavra de todo o nosso coração. (CALVINO, 1992, I, Cap VII, p33)

Ao qual respondo que o testemunho que dá o Espírito Santo é muito mais excelente que qualquer outra razão. Porque, ainda que Deus somente, seja testemunho suficiente de si mesmo em sua Palavra, com tudo esta Palavra nunca se dará crédito no coração dos homens enquanto não seja selada com o testemunho interior do Espírito.

Portanto isso nos deveria fazer adorar a Deus com mais alegria em nosso coração ainda, pois por meio disso, vemos o quanto de nada somos capazes, para podermos crer ou produzir alguma coisa, à parte da ação suprema de Deus que tudo opera em nosso coração para o bem e a glória Dele mesmo. E nesse mesmo sentido, (ANGLADA, 1998, P70) nos acrescenta o seguinte:

Esta persuasão não significa de modo algum uma revelação adicional do Espírito. Significa, sim, que a ação do Espírito no coração de uma pessoa, iluminando seu coração e sua mente em trevas, regenerando-o, fazendo-o nova criatura, dissipa as trevas espirituais da sua mente, remove a obscuridade do seu coração, permitindo que reconheça a autoridade divina das Escrituras.

O homem natural está morto em seus pecados e delitos, todas as suas faculdades foram afetadas e por isso, é impossível a ele conseguir chegar a alguma conclusão a respeito de Deus e de sua palavra de forma verdadeira sem que o Santo Espírito opere em seu coração.

(CRAMPTON, 1992, P25) mais uma vez colabora conosco ao dizer: “O testemunho interno do Espírito Santo é necessário para confirmar a autoridade da palavra de Deus e para causar em nós, uma submissão a ela…”

Não que do nosso entendimento dependa a Escritura para ser o que é, pois ela, será autoridade como Palavra de Deus a despeito de crermos nela ou não, pois ela foi inspirada pelo Espírito Santo e nesse sentido ela é autoridade divina independente de qualquer dos homens. A questão é que só aceitaremos essa Palavra de Deus como Palavra de Deus pra nossa vida, quando o Espírito Santo testemunhar isso em nosso coração, algo que nos fará crer e amar a Palavra de Deus e tudo aquilo que estiver nela. (ARMISTRONG, 2000, p90) esclarece bem esse pensamento ao dizer:

Portanto, a autoridade da Escritura não está na inteligência ou no testemunho. Ela não é encontrada na pessoa de Moisés, Paulo ou Pedro. A Autoridade é encontrada no próprio Deus soberano. O Deus que soprou as palavras por meio dos escritores humanos está por detrás de toda a afirmação, toda a doutrina, toda a promessa toda a ordem contida nas Escrituras.

E mais uma vez querendo tanto deixar claro quanto demonstrar a inegável ação do Espírito Santo em nós capacitando-nos a conhecer mais a Deus e em conseqüência disso amá-lo e honrá-lo mais e mais através das Sagradas Escrituras por intermédio do testemunho do Espírito cito (CALVINO, I Cap VII, p36) dizendo:

Tenhamos, pois, que não há homem algum, a não ser que o Espírito Santo lhe haja instruído interiormente que descanse deveras nas Sagradas Escrituras; e ainda que ela leve consigo o crédito que se deve para ser admitida sem nenhuma objeção não está sujeita a provas e nem a argumentos, não obstante alcançar a certificação que merece pelo testemunho do Espírito Santo.

Assim sendo a síntese que podemos fazer tanto a respeito da autoridade da Escritura por meio da inspiração, de sua autonomia presente no testemunho dos profetas e apóstolos, como no testemunho interno do Espírito Santo é que, a bíblia tem sua autoridade tanto no seu próprio autor, quanto no Espírito Santo que nos capacita a percebermos essa tão magnífica autoridade. Tanto o Espírito que falou através dos profetas e apóstolos que então edificaram a igreja de Cristo, é o mesmo Espírito que por meio da Palavra escrita nos dá a convicção que precisamos através da iluminação espiritual, para que sejamos convencidos de que Deus nos fala por meio de Sua Santa Palavra e que devemos obedecer e praticar os Seus Santos ensinos.

(POLMAN, Grand Rapids Michigan, p 100) falando a respeito da introdução de Calvino no Pentateuco menciona o seguinte fato:

Na introdução de seu comentário ao Pentateuco, Calvino faz  notar que Moisés não expressou adivinhações próprias, senão que ele foi instrumento do Espírito Santo para a publicação dessas coisas que eram importantes e deveriam ser conhecidas dos homens. Esses cinco livros lemos no comentário do Êxodo 31:18- foram escritos sob a condução do Espírito Santo de Deus, sendo que Deus mesmo os tem sugerido e expressado com as palavras de sua própria boca

(POLMAN, Op cit) “Portanto, devemos prestar a mesma atenção reverente as palavras dos profetas como se as ouvíssemos do próprio Deus entre o trono do céu”.

É exultante sabermos que Deus por meio de seu Espírito Santo é quem nos conduz a verdade revelada em Sua própria Palavra sendo que a ação do Espírito Santo, seu testemunho nunca é em detrimento dessa mesma Palavra que Ele testifica ser a verdade de Deus através de todas as eras.

Algo que pode ser visto no comentário de 2Tm 3:16 por parte de Calvino, que evidencia tanto a autoridade como a inspiração das Escrituras e corrobora o pensamento até aqui desenvolvido que é o seguinte (CALVINO, 1998, The Age digital Library).

(A inspiração) É o princípio que distingue a nossa religião de todas as outras porque nós sabemos que Deus nos tem falado e somos completamente convencidos de que os profetas não falaram pela sua própria sugestão, mas sendo órgãos do Espírito Santo somente expressaram o que eles tinham sido comissionados do céu a declarar.

Isso nos deveria fazer cada vez mais inflexíveis quando a questão é a Palavra de Deus que testemunha de Sua obra e redenção. CALVINO, 1998, The Age Comentary Library) comenta o texto de 1Pe1.20-21, em que Pedro fala da profecia dada pelo Espírito Santo dizendo que:

Eles, (os profetas), não fizeram deles mesmos, ou de acordo com suas próprias vontades, ou loucamente entregaram-se as suas próprias invenções. O significado é, que o começo do conhecimento correto, é dado para crédito dos santos profetas, o qual é devido a Deus.

Nunca qualquer dúvida sobre a inspiração das Sagradas Escrituras pairaram sobre a mente de Calvino, ao contrário, ele reconhecia que a palavra de Deus inclusive do A.T., eram regra de total confiança e fidelidade, pois receberam isso do próprio Deus, que outorga juntamente sua autoridade mediante sua Palavra sobre nossa vida.

Temos uma autoridade num mundo onde autoridade é algo cada vez mais relativo, nossa autoridade é a palavra de Deus, que contém autoridade em si mesma vinda de Deus, e que nos submete mediante o Seu Santo Espírito, a aceitarmos essa autoridade, como autoridade sobre nossa vida.

Observemos o que (HENRY, 1998, P46) tem a nos dizer a esse respeito:   “Para o crente, a Escritura é a Palavra de Deus dada na forma objetiva das verdades proposicionais por meio dos profetas e apóstolos divinamente inspirados, e o Espírito Santo é o Doador da fé mediante essa palavra”.

É confortador saber disso, porque pode-se ver a ação de Deus trabalhando em benefício de Seu povo de forma completa e profunda, produzindo nele, desejos de piedade e sujeição a Sua Palavra através de seu poder em nos ter dado seu Santo Espírito para testemunhar em nosso coração sobre a sua poderosa Palavra.

(CALVINO, 1998, The Age Digital Library) em seu comentário de 1 João vs6 novamente falando do testemunho interno do Espírito Santo e de Sua ação na vida dos crentes diz:

Ele demonstra nessa clausula como o crente conhece e sente o poder de Cristo até porque o Espírito dá a ele essa certeza; e que sua fé pode não vacilar, ele adiciona, que a totalidade, a real firmeza ou a estabilidade é produzida pelo testemunho do Espírito santo. E ele O chama de Espírito da Verdade, porque sua autoridade é indubitável e deve ser abundantemente suficiente para nós.

A convalescença do doente só é possível por meio dos remédios que ele toma, através de uma boa orientação médica e de medicamentos recomendados para a sua própria doença. Vê-se com isso também, o quanto é importante compreender a dimensão da ação do Espírito Santo em nosso coração, que é capaz de curar nossas feridas, sarar nossa alma, ajudando-nos a crescer espiritualmente única e exclusivamente por meio de Sua Santa Palavra (e também de outros meios de graça que não estão sendo abordados aqui) , que Ele mesmo usa, para aplicar em seus servos, como um medicamento milagroso e poderoso, capaz de curar todas enfermidades e poderosa para nos levantar da mais dolorosa mediocridade espiritual. A receita que Deus usa inseparavelmente é Sua Palavra e Seu Espírito que a utiliza para eficazmente fazer em nós as mudanças necessárias para que Lhe sejamos melhores adoradores.

(CALVINO, 1998, The Age Digital Library) nos esclarece a esse respeito dizendo:

Nós supomos como escorregadio é a queda da mente humana para o esquecimento de Deus, como grande sua tendência para cada espécie de erro, como grande é sua cobiça para adaptar-se a novas e artificiais religiões. Então nos podemos perceber como necessário foi escrever provas da doutrina celestial que nunca perecerá no esquecimento nem no erro vão da audácia e nem na corrupção dos homens.

Essas palavras de Calvino nos vislumbram uma perspectiva majestosa da Palavra de Deus, que trás a mente humana outra vez  a uma adoração verdadeira que gera piedade e reverencia em nossos corações, e isso só pode ser possível por meio de sua Santa Palavra, e por intermédio de seu Santo Espírito que aplica essa palavra em nós, nos corrigindo e guiando pelos seus caminhos, caminhos esses trilhados e escritos pelo próprio Deus.

(NIESEL, Philadelphia, p23) fazendo um comentário a respeito de Calvino e da importância que o reformador dava a palavra de Deus como fonte de conhecimento do próprio Senhor nos diz: “Assim Calvino realmente começou a primeira sentença das institutas expondo  de que Deus ensina-nos totalmente através de sua Santa Palavra”.

Percebe-se no decorrer deste capítulo, o quanto foi dado as Escrituras Sagradas, a ênfase de que a mesma, deve ser vista e ouvida como condutora e guia dos caminhos daqueles que amam a Deus, portanto, relevante se faz, a inserção deste capítulo, para que se veja, a necessidade de como cristãos reformados, defendermos nossos princípios de família e relacionamento conjugal.

Há uma manual de culto, de adoração, um manual que transforma toda referencia e adequa nossa cosmovisão, a uma cosmovisão que glorifica a Cristo como Senhor e Rei. Portanto, crê-se que não seria relevante mencionar neste trabalho, uma perspectiva reformada sobre a estruturação de nossa vida familiar em várias ramificações, se não abordássemos qual a fonte de onde cremos que tudo o que foi dito é verdade, e por que é verdade.

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